Ayres Britto recebe Título de Cidadão Baiano

AYB - Cidadão Bainao

 

Marcada por momentos de beleza e poesia, com direito ao guitarrista Armandinho tocando o Hino do Senhor do Bonfim, a sessão especial que homenageou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, com o Título de Cidadão Baiano, entrará para os anais como uma das mais comoventes já realizadas pela Assembleia Legislativa.
O ponto mais emocionante da sessão foi a fala do próprio homenageado que, além de renomado jurista, é também poeta. Lendo num Ipad seu discurso escrito na noite da última quinta-feira, Ayres lembrou que sua mãe, Dalva Ayres de Britto, baiana de Santo Amaro da Purificação (Recôncavo), completaria 98 anos nesta sexta-feira. “Meu coração sempre bateu pendularmente entre o Sergipe de meu pai e a Bahia de minha mãe”, afirmou o ministro, que se define como metade baiano, metade sergipano.
Natural da cidade de Propriá, Sergipe, Ayres Britto contou que tem outro motivo para sua relação com a Bahia ser tão forte: sua esposa, Rita de Cássia Pinheiro Reis de Britto, é de Vitória da Conquista, no Sudoeste. E, para ele, o baiano Castro Alves só não é considerado um dos melhores poetas do mundo, pois “não nasceu na Inglaterra de Shakespeare”. Emocionado com a homenagem, Ayres Britto avisou, logo no início, que não falaria sobre sua trajetória no STF e queria transformar sua participação na cerimônia em “uma verdadeira festa”.
SENSIBILIDADE
E ele nem precisou relembrar sua história na mais alta corte da Justiça do país. Coube à deputada Fabíola Mansur (PSB), proponente da homenagem aprovada por unanimidade pelos deputados da Casa, lembrar o caminho percorrido pelo jurista que, para ela, “usou poesia em seus julgamentos”. “Quis, talvez a Providência Divina, que o Supremo Tribunal Federal contasse em sua fileira de ministros com a presença sofisticada deste desbravador constitucional num momento em que matérias de natureza singular se tornassem objeto de apreciação e decisão por parte de nosso Poder Judiciário”, ressaltou ela.
Assuntos esses que, segundo a parlamentar, exigiam mais que profundo conhecimento da Constituição Federal. “Coisa que não falta ao nosso ministro Ayres Britto, mas que requeriam sensibilidade quase que num plano poético, que exigiam um sentimento altamente democrático, pois que estavam em jogo questões de natureza objetiva e subjetiva e que poderiam projetar o Brasil ou à escuridão medieval ou à luz da contemporaneidade”, afirmou Fabíola, em seu discurso. “Não restam dúvidas, ministro, que seu pensamento, sua vocação humanitária, seus votos, nos projetaram em direção da luz”.
A composição da mesa dimensiona o prestígio do homenageado na Bahia. Estavam lá os ex-governadores Roberto Santos e Waldir Pires, a senadora Lídice da Mata (PSB), o presidente do Tribunal de Contas do Estado, conselheiro Inaldo Araújo, o ex-deputado federal e acadêmico, Joaci Góes, além de outras autoridades e dezenas de parlamentares, entre eles o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Marcelo Nilo (PDT).
BIOGRAFIA
Poeta, acadêmico, professor, presidiu o Conselho Nacional de Justiça/CNJ. Em 2009, foi eleito um dos 100 brasileiros mais influentes do ano pela Revista Época. Na Ordem dos Advogados do Brasil, presidiu a Comissão Especial de Defesa da Liberdade de Expressão e é autor de diversas obras jurídicas e de poesia. Além disso, é membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas e da Academia Sergipana de Letras. Nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, em 2003, assumiu a relatoria de temas complexos, com intensa repercussão em todo o território nacional.
Como ministro do Supremo, Ayres Brito votou favorável constitucionalidade do artigo da Lei de Biossegurança que permitia o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas científicas. Também votou favoravelmente à possibilidade de a mulher interromper a gravidez de um feto anencéfalo sem ser criminalizada. O voto de Carlos Ayres Brito também foi decisivo para assegurar aos casais homossexuais brasileiros o direito à união estável, equiparando a união entre pessoas do mesmo sexo à entidade familiar.
Mas, ao final de seu discurso na Assembleia, o novo cidadão baiano citou outro baiano, o músico Raul Seixas, e afirmou que prefere “ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Fonte e imagem: Assembleia legislativa do Estado da Bahia